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terça-feira, 29 de setembro de 2026

Reciclar é bom. Mas o que pode estar indo junto para o novo produto?



1. Cuidados com a Reciclagem

Vamos pensar nos 3R - formulação clássica de uma sequência lógica, simples e fácil de lembrar, quando se fala em estratégia de prevenção de resíduos:

- Reduzir: consumir menos recursos e gerar menos resíduos.

- Reutilizar: prolongar a vida útil de produtos e materiais.

- Reciclar: recuperar materiais que não podem mais ser utilizados diretamente.

O ponto importante é a hierarquia. Reciclar não deveria ser a primeira opção quando é possível evitar a geração do resíduo ou prolongar a vida do produto.

Quando se chega na fase de reciclar, ou seja, transformar um produto inservível em matéria prima secundária para o mesmo produto ou outros, temos que pensar se não estamos carregando contaminantes, mesmo que de forma involuntária, para o novo produto.

É sobre isto que vamos falar neste post. O alerta apareceu em um trabalho científico (HANSEL et al., 2026) sobre substâncias tóxicas em resíduos sólidos brasileiros e o risco de contaminação de produtos novos, fabricados a partir da reciclagem desses resíduos contaminados.

 

1.1   Migração de contaminantes

Dentre os quatro tipos de resíduos pesquisados: resíduos de construção e demolição, veículos em fim de vida útil (especialmente espuma e tecidos), móveis estofados inservíveis e itens de cuidados infantis (bicos de mamadeira usados, cadeirinha de bebê, chupeta, mordedor) (HANSEL et al., 2026).

Um alerta semelhante foi feito em um artigo do Canadá (CHIBWE et al., 2023) sobre a presença de produtos químicos e metais em plásticos reciclados. O estudo aponta contaminação abaixo dos limites estabelecidos pela União Europeia, mas destaca a necessidade de uma triagem adicional de produtos fabricados a partir de plásticos reciclados para documentar a presença de substâncias químicas potencialmente perigosas.

Na figura 1, temos grânulos (pellets) de plásticos fabricados a partir de resíduos sólidos de plástico.


Figura 1 – Pellets de plástico reciclado.


1.2   Quais são os riscos?

Segundo Hansel et al. (2026) seria importante que o Brasil adotasse um limite máximo de concentração para ésteres organofosforados clorados - Chlorinated Organophosphate Esters CI -OPEs em polímeros reciclados, como o definido na legislação da União Europeia (1.000mg/Kg).

Sem um limite estabelecido fica difícil criar um instrumento regulatório para identificar e desviar os resíduos com concentrações superiores de contaminantes dos fluxos de reciclagem convencionais.

Os riscos estão relacionados tanto à exposição ocupacional dos trabalhadores em instalações de desmontagem, especialmente de veículos em fim de vida útil, que apresentaram as maiores concentrações de contaminantes no estudo de Hansel et al. (2026), quanto à possibilidade de os Cl-OPEs migrarem dos produtos tratados para o ambiente.

Esses compostos são comumente encontrados em escritórios e residências, podendo ser inalados ou ingeridos, principalmente por crianças que manuseiam, brincam ou mordem brinquedos e acessórios plásticos. Veja a Figura 2 – Criança, brincando com o mordedor de plástico.


Figura 2 – Criança, brincando com o mordedor de plástico.


Conclusão

A partir da divulgação de artigos científicos sobre os cuidados necessários com a reciclagem e, posteriormente, pela mídia, das medidas que vêm sendo adotadas no mundo para evitar a migração de substâncias tóxicas para os produtos reciclados, é possível avançarmos para uma maior segurança no uso de produtos fabricados a partir de matéria-prima secundária, sem o receio de trazer um problema para dentro de casa.

O Brasil precisa estabelecer limites seguros para substâncias tóxicas presentes em polímeros reciclados, como ésteres organofosforados clorados - Chlorinated Organophosphate Esters (Cl-OPEs), a exemplo do que ocorre na União Europeia, onde a legislação estabelece uma concentração máxima de 1.000 mg/kg (HANSEL et al., 2026), ou ser ainda mais restritivo, dependendo da aplicação dos produtos novos.

Mais do que uma questão técnica ou industrial, esse é um tema que merece a atenção de toda a sociedade. Afinal, quando um material reciclado retorna à nossa casa na forma de um brinquedo, utensílio, embalagem ou outro produto de uso cotidiano, é razoável esperar que ele seja seguro.

A busca por uma economia mais circular precisa caminhar lado a lado com um controle efetivo dos materiais reciclados, para que aquilo que fazemos hoje em benefício do meio ambiente não traga, amanhã, riscos que poderiam ter sido evitados.

 

Referências:

Chibwe et al., 2023 - Target and Nontarget Screening of Organic Chemicals and Metals in Recycled Plastic Materials. Environ Sci Technol. 2023 Feb 28;57(8):3380-3390. doi: 10.1021/acs.est.2c07254. Epub 2023 Feb 14. PMID: 36787488; PMCID: PMC9979653. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9979653/. Acesso em 28 de setembro de 2026.

Hansel et al., 2026 - Chlorinated organophosphate esters in Brazilian solid waste: concentrations, national load estimates, and regulatory implications for a circular economy, Environmental Pollution, Volume 399, 2026, 128229, ISSN 0269-7491, https://doi.org/10.1016/j.envpol.2026.128229. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0269749126005993. Acesso em 26 de setembro de 2026.



 

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