1. Cuidados com a Reciclagem
Vamos pensar nos 3R - formulação
clássica de uma sequência lógica, simples e fácil de lembrar, quando se fala em
estratégia de prevenção de resíduos:
- Reduzir:
consumir menos recursos e gerar menos resíduos.
- Reutilizar:
prolongar a vida útil de produtos e materiais.
- Reciclar: recuperar
materiais que não podem mais ser utilizados diretamente.
O ponto importante é a hierarquia.
Reciclar não deveria ser a primeira opção quando é possível evitar a geração do
resíduo ou prolongar a vida do produto.
Quando se chega na fase
de reciclar, ou seja, transformar um produto inservível em matéria prima secundária
para o mesmo produto ou outros, temos que pensar se não estamos carregando
contaminantes, mesmo que de forma involuntária, para o novo produto.
É sobre isto que vamos
falar neste post. O alerta apareceu em um trabalho científico
(HANSEL et al., 2026) sobre substâncias tóxicas em resíduos sólidos
brasileiros e o risco de contaminação de produtos novos, fabricados a partir da
reciclagem desses resíduos contaminados.
1.1 Migração
de contaminantes
Dentre os quatro tipos de
resíduos pesquisados: resíduos de construção e demolição, veículos em fim de
vida útil (especialmente espuma e tecidos), móveis estofados inservíveis e itens
de cuidados infantis (bicos de mamadeira usados, cadeirinha de bebê, chupeta, mordedor)
(HANSEL et al., 2026).
Um alerta semelhante foi
feito em um artigo do Canadá (CHIBWE et al., 2023) sobre a presença de
produtos químicos e metais em plásticos reciclados. O estudo aponta
contaminação abaixo dos limites estabelecidos pela União Europeia, mas destaca
a necessidade de uma triagem adicional de produtos fabricados a partir de plásticos
reciclados para documentar a presença de substâncias químicas potencialmente
perigosas.
Na figura 1, temos grânulos
(pellets) de plásticos fabricados a partir de resíduos sólidos de plástico.
Figura 1 – Pellets
de plástico reciclado.
1.2 Quais
são os riscos?
Segundo Hansel et al.
(2026) seria importante que o Brasil adotasse um limite máximo de concentração
para ésteres organofosforados clorados - Chlorinated Organophosphate Esters
CI -OPEs em polímeros reciclados, como o definido na legislação da União
Europeia (1.000mg/Kg).
Sem um limite
estabelecido fica difícil criar um instrumento regulatório para identificar e
desviar os resíduos com concentrações superiores de contaminantes dos fluxos de
reciclagem convencionais.
Os riscos estão
relacionados tanto à exposição ocupacional dos trabalhadores em instalações
de desmontagem, especialmente de veículos em fim de vida útil, que
apresentaram as maiores concentrações de contaminantes no estudo de Hansel et
al. (2026), quanto à possibilidade de os Cl-OPEs migrarem dos produtos
tratados para o ambiente.
Esses compostos são
comumente encontrados em escritórios e residências, podendo ser inalados ou
ingeridos, principalmente por crianças que manuseiam, brincam ou mordem
brinquedos e acessórios plásticos. Veja a Figura 2 – Criança, brincando com o mordedor
de plástico.
Figura 2 – Criança, brincando
com o mordedor de plástico.
Conclusão
A partir da divulgação de
artigos científicos sobre os cuidados necessários com a reciclagem e,
posteriormente, pela mídia, das medidas que vêm sendo adotadas no mundo para evitar
a migração de substâncias tóxicas para os produtos reciclados, é possível
avançarmos para uma maior segurança no uso de produtos fabricados a partir de
matéria-prima secundária, sem o receio de trazer um problema para dentro de
casa.
O Brasil precisa estabelecer
limites seguros para substâncias tóxicas presentes em polímeros reciclados,
como ésteres organofosforados clorados - Chlorinated Organophosphate Esters
(Cl-OPEs), a exemplo do que ocorre na União Europeia, onde a legislação
estabelece uma concentração máxima de 1.000 mg/kg (HANSEL et al., 2026),
ou ser ainda mais restritivo, dependendo da aplicação dos produtos novos.
Mais do que uma questão
técnica ou industrial, esse é um tema que merece a atenção de toda a
sociedade. Afinal, quando um material reciclado retorna à nossa casa na
forma de um brinquedo, utensílio, embalagem ou outro produto de uso cotidiano,
é razoável esperar que ele seja seguro.
A busca por uma
economia mais circular precisa caminhar lado a lado com um controle efetivo dos
materiais reciclados, para que aquilo que fazemos hoje em benefício do meio
ambiente não traga, amanhã, riscos que poderiam ter sido evitados.
Referências:
Chibwe et al., 2023 - Target and Nontarget Screening
of Organic Chemicals and Metals in Recycled Plastic Materials. Environ Sci
Technol. 2023 Feb 28;57(8):3380-3390. doi: 10.1021/acs.est.2c07254. Epub 2023
Feb 14. PMID:
36787488; PMCID: PMC9979653. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9979653/.
Acesso em 28 de setembro de
2026.
Hansel et al., 2026 - Chlorinated organophosphate
esters in Brazilian solid waste: concentrations, national load estimates, and
regulatory implications for a circular economy, Environmental Pollution, Volume
399, 2026, 128229, ISSN 0269-7491, https://doi.org/10.1016/j.envpol.2026.128229.
Disponível
em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0269749126005993.
Acesso em 26 de setembro de 2026.







